- A moça que te falei anda agora lendo Rancière no Museu da República, no banco do lago.
- Como ela é?
- Um pouco mais baixa do que eu, morena, tem um andar que me acalma, usa quase sempre um vestido azul turquesa, tem olheiras bem leves e essa semana apareceu com um decote impiedoso. É tudo que eu sei. Como anda meu histórico de gafes involuntárias por hoje, Susan? Posso abordá-la?
- Com que assunto, Milorde? Nada mais lembramos do Jacques Rancière.
- Mas eu não sou carioca?
- E daí? Que besteira é essa agora? Você gosta é de ver o tempo escorrer enquanto suas musas casam.
- Você é cruel, Susan! Estou falando de fascinação!
- Nesse caso você deve falar com ela.
- "E a doce meiguice desse teu olhar. Índia, teus lábios de rosa para mim sorrindo. Índia da pele morena tua boca pequena eu quero beijar."
- Assim?
- É chegada a sua hora de solar na berlinda, Susan, me dê o amuleto, please.
Um médico sem bengala tomava café da manhã com geleia de romã
em Berlin; uma gaivota sobrevoava um transatlântico na orla de Copacabana ou o cruzeiro
de um filme do Godard; a tecnologia desenfreada fazia das suas, e das tripas um
antídoto; artimanhas estudantis espalhavam incólumes colas de provas diante de
professores que liam jornais com os pés na mesa; soluções de araque enganavam
desempregados esperançosos; uma criança ria da fome de javalis do Obelix; arenque
e amoras eram palavras na ponta da pena de uma jovem poetisa peruana, solteira por sinal de trânsito, simbolista atávica com unhas não menos provocantes do que as da turista oriental do mercado.
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