terça-feira, 25 de março de 2014
Inclinada a aproveitar o clima de endeusamento, de manjar de demiurgos privilegiados com a estranheza de usufruir de uma garra polida a preço de banana, a clientela recompensava os afagos que recebia como podia, por exemplo com elogios, mesmo que breves, ao refinamento das entrées, à suculência das ostras, à finesse das sobremesas, aos tintos e aos brancos da adega, à inventividade dos drinks e ao clima agradável do ambiente, abençoado com a ausência de incidentes, de música de fundo, de televisor e de moscas. Fred Astaire, prateado, inclinava sua cartola na porta do banheiro masculino, onde comia solto o jorro de pontaria e escavação nos urinóis repletos de frozen, com seus gomos de tangerina seccionados em rodelas frescas.
Menção honrosa para a efusão de saquê e manga espada do barman norueguês, de tirar o chapéu. Com sua discrição exemplar, ele rondava as mesas, onde se degustavam seus néctares, para pescar palpites que aprimorassem sua alquimia. De efusão em efusão, de congratulações em júbilos, deu-se o salto. Explico: sem razão retumbante, e sem que nada fosse quebrado nem nenhuma canela atingida, o homem, com seu chapéu de papel de muffin, executou um salto com a perfeição de uma Ariel Laranjeiras. Foi aplaudido e voltou pra cozinha. O maître, coreógrafo geral do estabelecimento, não lhe dirigiu a habitual testa franzida com a qual reprovava as atitudes da equipe consideradas inapropriadas.
segunda-feira, 17 de março de 2014
Funny era uma escritora libanesa com quem eu passeei pela orla de Copacabana. Ela era amiga de duas amigas minhas gêmeas, também libanesas, que não queriam que a moça ficasse sozinha na cidade num sábado de dezembro em que as duas viajariam a trabalho para Petrópolis. Elas então me sugeriram, e eu as agradeço por isso, passear com a moça pela orla, até o Leme, e depois tomar um suco ou algo assim. Nada muito criativo. Ela era agradabilíssima, tinha os cabelos castanhos cacheados, frondosos, e um cheiro onírico de jasmim. Ela se sentou ao lado da estátua do Paulo Mendes Campos, que ela brindou com um colar de pétalas carnavalesco que tirou da bolsa de renda, desabotoou a camisa de seda, despiu-se da saia negra e me chamou, com seu maiô de pinhos alpestres, para a beira do mar, sorrindo. Finito, pois foi combinado com a direção do blog que a estória dela deveria sumir na altura da Bolívar, como aconteceu.
domingo, 16 de março de 2014
Em seu quarto, após sair da ducha, Dora, uma designer de 26 anos e 1,68m de altura, ajeita displicentemente os cabelos à la garçone e compara os seios diante do espelho. Na altura da sua sobrancelha direita, grossa, na quina do espelho, via-se, na sala, o pedaço de um pôster emoldurado. As luzes das lâmpadas do bar, atarraxadas no alto da estrutura de madeira, perpassavam, com gotículas amarelas sequenciadas em dois arcos de ângulos rasos o acrílico que protegia o pôster, de ponta a ponta. Sua gata, bigorna, dormia no sofá, encostado ao pé da janela, de onde se via uma impressionante montanha, salpicada de arbustos, fendas e manchas brancas. Dora morava no oitavo andar, de onde também se via o estacionamento do edifício. Nas prateleiras de compensado havia livros de pintura, romances, revistas de design, uma pedra do Vesúvio, presente de uma amiga italiana paleontóloga, e alguns papéis soltos.
Sara, sua vizinha de porta e amiga de fato, entra no quarto:
- Ficou ótimo esse cartaz na sala!
- O pôster do The Fall?
- Sim
- Eu também gostei.
- Quase não dá pra ler a data, de tão fino que ficou o papel. Haja aura, hein?!
- Tinha tanta cola no verso que fodi minhas unhas pra descolar, por isso ele tá rasgado nas pontas e meio amassado. Mas o que importa é que o show foi memorável. O pessoal da banda me viu descolando o cartaz. Eles sorriram, eu sorri de volta, foi como uma dedicatória.
- E porque você não pediu pra eles autografarem, ora bolas?
- Sei lá, fiquei com vergonha, tinha ficado satisfeita com o sorriso deles.
Sara observa os seios de Dora, que, inclina a cabeça com os olhos focados no vago, e diz:
- Gosto deles...
- São chiques, caem bem em você !
- Peitos chiques?
- Chiques, sensuais, enfim, você sabe, eles são charmosos, atraentes. Se apressa amiga!
- Só falta a blusa e o sutiã, ou algum vestido. Aliás, vou com esse jeans mesmo.
- E aquele vestido bordado, frufru?
- Será?
- Júlio, você não quer trocar a música? Lembra do vocalista do Pulp dizendo que é deprimente escutar Leonard Cohen antes de festa?
- Que besteira, Sara! E Pulp! Me poupe! Pronto, escolhi, vou com essa blusa aqui mesmo, foda-se!
- Mas pelo menos vamos escutar algo mais animado antes de sair, Dora!
- Que horas são?
- Pronto, coloquei Cornershop, meninas, pra vocês que estão na puberdade.
- O que?
Sara, sua vizinha de porta e amiga de fato, entra no quarto:
- Ficou ótimo esse cartaz na sala!
- O pôster do The Fall?
- Sim
- Eu também gostei.
- Quase não dá pra ler a data, de tão fino que ficou o papel. Haja aura, hein?!
- Tinha tanta cola no verso que fodi minhas unhas pra descolar, por isso ele tá rasgado nas pontas e meio amassado. Mas o que importa é que o show foi memorável. O pessoal da banda me viu descolando o cartaz. Eles sorriram, eu sorri de volta, foi como uma dedicatória.
- E porque você não pediu pra eles autografarem, ora bolas?
- Sei lá, fiquei com vergonha, tinha ficado satisfeita com o sorriso deles.
Sara observa os seios de Dora, que, inclina a cabeça com os olhos focados no vago, e diz:
- Gosto deles...
- São chiques, caem bem em você !
- Peitos chiques?
- Chiques, sensuais, enfim, você sabe, eles são charmosos, atraentes. Se apressa amiga!
- Só falta a blusa e o sutiã, ou algum vestido. Aliás, vou com esse jeans mesmo.
- E aquele vestido bordado, frufru?
- Será?
- Júlio, você não quer trocar a música? Lembra do vocalista do Pulp dizendo que é deprimente escutar Leonard Cohen antes de festa?
- Que besteira, Sara! E Pulp! Me poupe! Pronto, escolhi, vou com essa blusa aqui mesmo, foda-se!
- Mas pelo menos vamos escutar algo mais animado antes de sair, Dora!
- Que horas são?
- Pronto, coloquei Cornershop, meninas, pra vocês que estão na puberdade.
- O que?
Eram quadros pequenos, o que não
deixava, visto o tamanho do salão, de ser uma qualidade, mas qualidade que logo
se desequilibrava na balança do conjunto pelo contrapeso das suas outras
características: temas indesvendáveis e molduras desproporcionais, lúgubres e
rococós, que eu suspeitava não serem as originais. Espremendo os olhos
destituídos de lentes e descartando a opção de serem quadros minimalistas, eu me
esforçava em elucidar-lhes as telas, de longe, ou em criar alguma imagem mental
qualquer, menos obscura, que me fizesse arriar as sobrancelhas, mas
identificava apenas borrões de tom predominantemente marrom. Os quadros eram quatro
pontos de interrogação corroídos pela ferrugem em meio a afirmações eretas, limpas,
lisas e amenas, como o traje correto e alvo dos garçons, as paredes pintadas de
amarelo claro inofensivo, o design modesto e indolor das cadeiras, o naipe rústico
das mesas de madeira, com suas toalhas de quadradinhos vermelhos, laranjas e
verdes em diagonal, o desenho simples dos ventiladores, que giravam sem ruído,
e a iluminação, bem arrojada e econômica. O ensemble era todo equilibrado e poupado
de maneirismos, e no entanto, lá estavam eles, os quadros que não batiam, territórios
obscuros cercados por um visível empenho de impecabilidade. Desleixo? Falta de senso
crítico? Meu palpite era que alguém os havia dependurado ali por valor afetivo.
Talvez um bisneto sentimental do malogrado pintor fosse um dos responsáveis
pelo espaço, e insistira cegamente em encontrar beleza onde o tempo havia
sentenciado não haver mais. Eu os secava, e sozinho, diga-se en passant, pois nenhum dos humanos
presentes parecia estranhá-los. A hipótese de romance noir na qual eu apostava
enquanto não anunciavam protocolarmente a entrada da Duquesa de Nancy no
recinto, era a de que atrás dos quadros escondiam-se cofres com jades,
manuscritos de caligrafias sensuais, maços empoeirados de dólares sujos ou barras
de ouro empilhadas em forma de pirâmide, tesouros somente acessíveis ao mofo e
a pessoas que deviam saber melhor do que ninguém passarem desapercebidas, com suas
retinas identificáveis por sensores ultraleves de circuitos complexos, instalados
no insuspeitável restaurante por agentes-cientistas bem pagos e mudos comme il faut. Eu ainda aguardava Nancy.
Ela não atendera minhas chamadas e eu tinha receio de azucriná-la, apesar de
receber suas ligações lacrimosas em plena madrugada e de reconfortá-la em muitas
ocasiões inconvenientes.
terça-feira, 11 de março de 2014
- A moça que te falei anda agora lendo Rancière no Museu da República, no banco do lago.
- Como ela é?
- Um pouco mais baixa do que eu, morena, tem um andar que me acalma, usa quase sempre um vestido azul turquesa, tem olheiras bem leves e essa semana apareceu com um decote impiedoso. É tudo que eu sei. Como anda meu histórico de gafes involuntárias por hoje, Susan? Posso abordá-la?
- Com que assunto, Milorde? Nada mais lembramos do Jacques Rancière.
- Mas eu não sou carioca?
- E daí? Que besteira é essa agora? Você gosta é de ver o tempo escorrer enquanto suas musas casam.
- Você é cruel, Susan! Estou falando de fascinação!
- Nesse caso você deve falar com ela.
- "E a doce meiguice desse teu olhar. Índia, teus lábios de rosa para mim sorrindo. Índia da pele morena tua boca pequena eu quero beijar."
- Assim?
- É chegada a sua hora de solar na berlinda, Susan, me dê o amuleto, please.
Um médico sem bengala tomava café da manhã com geleia de romã em Berlin; uma gaivota sobrevoava um transatlântico na orla de Copacabana ou o cruzeiro de um filme do Godard; a tecnologia desenfreada fazia das suas, e das tripas um antídoto; artimanhas estudantis espalhavam incólumes colas de provas diante de professores que liam jornais com os pés na mesa; soluções de araque enganavam desempregados esperançosos; uma criança ria da fome de javalis do Obelix; arenque e amoras eram palavras na ponta da pena de uma jovem poetisa peruana, solteira por sinal de trânsito, simbolista atávica com unhas não menos provocantes do que as da turista oriental do mercado.
- Como ela é?
- Um pouco mais baixa do que eu, morena, tem um andar que me acalma, usa quase sempre um vestido azul turquesa, tem olheiras bem leves e essa semana apareceu com um decote impiedoso. É tudo que eu sei. Como anda meu histórico de gafes involuntárias por hoje, Susan? Posso abordá-la?
- Com que assunto, Milorde? Nada mais lembramos do Jacques Rancière.
- Mas eu não sou carioca?
- E daí? Que besteira é essa agora? Você gosta é de ver o tempo escorrer enquanto suas musas casam.
- Você é cruel, Susan! Estou falando de fascinação!
- Nesse caso você deve falar com ela.
- "E a doce meiguice desse teu olhar. Índia, teus lábios de rosa para mim sorrindo. Índia da pele morena tua boca pequena eu quero beijar."
- Assim?
- É chegada a sua hora de solar na berlinda, Susan, me dê o amuleto, please.
Um médico sem bengala tomava café da manhã com geleia de romã em Berlin; uma gaivota sobrevoava um transatlântico na orla de Copacabana ou o cruzeiro de um filme do Godard; a tecnologia desenfreada fazia das suas, e das tripas um antídoto; artimanhas estudantis espalhavam incólumes colas de provas diante de professores que liam jornais com os pés na mesa; soluções de araque enganavam desempregados esperançosos; uma criança ria da fome de javalis do Obelix; arenque e amoras eram palavras na ponta da pena de uma jovem poetisa peruana, solteira por sinal de trânsito, simbolista atávica com unhas não menos provocantes do que as da turista oriental do mercado.
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