Eram quadros pequenos, o que não
deixava, visto o tamanho do salão, de ser uma qualidade, mas qualidade que logo
se desequilibrava na balança do conjunto pelo contrapeso das suas outras
características: temas indesvendáveis e molduras desproporcionais, lúgubres e
rococós, que eu suspeitava não serem as originais. Espremendo os olhos
destituídos de lentes e descartando a opção de serem quadros minimalistas, eu me
esforçava em elucidar-lhes as telas, de longe, ou em criar alguma imagem mental
qualquer, menos obscura, que me fizesse arriar as sobrancelhas, mas
identificava apenas borrões de tom predominantemente marrom. Os quadros eram quatro
pontos de interrogação corroídos pela ferrugem em meio a afirmações eretas, limpas,
lisas e amenas, como o traje correto e alvo dos garçons, as paredes pintadas de
amarelo claro inofensivo, o design modesto e indolor das cadeiras, o naipe rústico
das mesas de madeira, com suas toalhas de quadradinhos vermelhos, laranjas e
verdes em diagonal, o desenho simples dos ventiladores, que giravam sem ruído,
e a iluminação, bem arrojada e econômica. O ensemble era todo equilibrado e poupado
de maneirismos, e no entanto, lá estavam eles, os quadros que não batiam, territórios
obscuros cercados por um visível empenho de impecabilidade. Desleixo? Falta de senso
crítico? Meu palpite era que alguém os havia dependurado ali por valor afetivo.
Talvez um bisneto sentimental do malogrado pintor fosse um dos responsáveis
pelo espaço, e insistira cegamente em encontrar beleza onde o tempo havia
sentenciado não haver mais. Eu os secava, e sozinho, diga-se en passant, pois nenhum dos humanos
presentes parecia estranhá-los. A hipótese de romance noir na qual eu apostava
enquanto não anunciavam protocolarmente a entrada da Duquesa de Nancy no
recinto, era a de que atrás dos quadros escondiam-se cofres com jades,
manuscritos de caligrafias sensuais, maços empoeirados de dólares sujos ou barras
de ouro empilhadas em forma de pirâmide, tesouros somente acessíveis ao mofo e
a pessoas que deviam saber melhor do que ninguém passarem desapercebidas, com suas
retinas identificáveis por sensores ultraleves de circuitos complexos, instalados
no insuspeitável restaurante por agentes-cientistas bem pagos e mudos comme il faut. Eu ainda aguardava Nancy.
Ela não atendera minhas chamadas e eu tinha receio de azucriná-la, apesar de
receber suas ligações lacrimosas em plena madrugada e de reconfortá-la em muitas
ocasiões inconvenientes.

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