domingo, 16 de março de 2014

Eram quadros pequenos, o que não deixava, visto o tamanho do salão, de ser uma qualidade, mas qualidade que logo se desequilibrava na balança do conjunto pelo contrapeso das suas outras características: temas indesvendáveis e molduras desproporcionais, lúgubres e rococós, que eu suspeitava não serem as originais. Espremendo os olhos destituídos de lentes e descartando a opção de serem quadros minimalistas, eu me esforçava em elucidar-lhes as telas, de longe, ou em criar alguma imagem mental qualquer, menos obscura, que me fizesse arriar as sobrancelhas, mas identificava apenas borrões de tom predominantemente marrom. Os quadros eram quatro pontos de interrogação corroídos pela ferrugem em meio a afirmações eretas, limpas, lisas e amenas, como o traje correto e alvo dos garçons, as paredes pintadas de amarelo claro inofensivo, o design modesto e indolor das cadeiras, o naipe rústico das mesas de madeira, com suas toalhas de quadradinhos vermelhos, laranjas e verdes em diagonal, o desenho simples dos ventiladores, que giravam sem ruído, e a iluminação, bem arrojada e econômica. O ensemble era todo equilibrado e poupado de maneirismos, e no entanto, lá estavam eles, os quadros que não batiam, territórios obscuros cercados por um visível empenho de impecabilidade. Desleixo? Falta de senso crítico? Meu palpite era que alguém os havia dependurado ali por valor afetivo. Talvez um bisneto sentimental do malogrado pintor fosse um dos responsáveis pelo espaço, e insistira cegamente em encontrar beleza onde o tempo havia sentenciado não haver mais. Eu os secava, e sozinho, diga-se en passant, pois nenhum dos humanos presentes parecia estranhá-los. A hipótese de romance noir na qual eu apostava enquanto não anunciavam protocolarmente a entrada da Duquesa de Nancy no recinto, era a de que atrás dos quadros escondiam-se cofres com jades, manuscritos de caligrafias sensuais, maços empoeirados de dólares sujos ou barras de ouro empilhadas em forma de pirâmide, tesouros somente acessíveis ao mofo e a pessoas que deviam saber melhor do que ninguém passarem desapercebidas, com suas retinas identificáveis por sensores ultraleves de circuitos complexos, instalados no insuspeitável restaurante por agentes-cientistas bem pagos e mudos comme il faut. Eu ainda aguardava Nancy. Ela não atendera minhas chamadas e eu tinha receio de azucriná-la, apesar de receber suas ligações lacrimosas em plena madrugada e de reconfortá-la em muitas ocasiões inconvenientes.


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